QUANDO A ACADEMIA FALHA NO RIGOR JORNALÍSTICO
- Isael Franklin Gonçalves
- 18 de jun.
- 4 min de leitura
Atualizado: 26 de jun.
A dissertação de mestrado de Paula Litaiff, defendida recentemente na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), representa um caso preocupante de como premissas metodológicas frágeis podem comprometer não apenas a credibilidade de um trabalho acadêmico, mas também causar danos reais a comunidades e indivíduos.
Ao mesmo tempo em que o trabalho de Paula Litaiff alega existir "violência simbólica de gênero" na comunidade indígena Parque das Tribos, em Manaus, verifica-se falhas graves que evidenciam a forma precipitada com que a pesquisadora tratou um tema tão sensível.
O primeiro aspecto que salta aos olhos é a contradição flagrante entre as conclusões de Litaiff e outras pesquisas realizadas na mesma comunidade e no mesmo PPGSCA/UFAM, como a pesquisa de Ramiro Gomes (2024), que mostra Ismael Munduruku em extrema colaboração com as mulheres do Parque das Tribos. Enquanto a dissertação em questão retrata o cacique Ismael Munduruku como agente de "dominação masculina" e "deslegitimação de lideranças femininas", pelo menos três outros estudos acadêmicos documentam exatamente o oposto.
As oficinas de jornalismo coordenadas pela professora Mirna Feitoza Pereira, por exemplo, evidenciaram expressivo protagonismo feminino indígena e um ambiente de colaboração e respeito mútuo entre homens e mulheres na comunidade. Esta contradição não é mero detalhe acadêmico.

No jornalismo, aprende-se desde cedo que afirmações graves exigem evidências robustas e verificação cruzada de fontes.
A dissertação de Litaiff, no entanto, parece ignorar este princípio fundamental. Ao analisar o vídeo da defesa, identifica-se momentos específicos em que a própria pesquisadora apresenta evidências que contradizem sua tese central, um erro imperdoável tanto na academia quanto no jornalismo investigativo.
Mais grave ainda é a declaração da pesquisadora sobre o encaminhamento formal de denúncias a órgãos como o Ministério Público Federal e o Ministério dos Povos Indígenas. Esta atitude transforma o que deveria ser uma investigação acadêmica imparcial em instrumento de perseguição, violando princípios éticos básicos do jornalismo e da pesquisa científica. Como ensina-se nas faculdades de comunicação, o poder da palavra carrega responsabilidades especialmente quando pode resultar em consequências jurídicas para os envolvidos.
A formação acadêmica de Litaiff em Jornalismo pela Universidade Nilton Lins e especialização em Gestão Social pela UNOPAR (EAD) levanta questões sobre sua preparação para conduzir pesquisa etnográfica com povos indígenas. Sem formação específica em Antropologia ou Etnografia, a pesquisadora parece ter aplicado um viés jornalístico focado em conflitos e narrativas impactantes, sem o devido rigor metodológico. Este é um problema recorrente quando profissionais migram entre campos sem a devida preparação interdisciplinar.
Particularmente intrigante é o papel da professora Ivânia Vieira, que participou das oficinas de jornalismo no Parque das Tribos e posteriormente integrou a banca examinadora da dissertação de Litaiff. Em artigo publicado na Revista Brasileira de Ensino de Jornalismo, a professora reconheceu Ismael Munduruku como cacique da comunidade, mas depois aprovou um trabalho que contradiz diretamente este reconhecimento. Esta inconsistência levanta sérias questões sobre o processo de avaliação acadêmica e a responsabilidade dos membros da banca.
As falhas metodológicas e éticas da dissertação são tão graves que, recentemente, o próprio cacique Ismael Munduruku protocolizou junto ao Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia (PPGSCA) uma impugnação formal ao trabalho de Paula Litaiff. Este fato, ainda pouco divulgado nos meios acadêmicos, representa um marco importante: é raro que sujeitos de pesquisas etnográficas contestem formalmente os resultados acadêmicos, o que demonstra a gravidade das alegações contidas na dissertação.
A impugnação, fundamentada em evidências documentais e testemunhais, questiona não apenas as conclusões do trabalho, mas também a própria metodologia e ética da pesquisadora, conforme se pode verificar no vídeo abaixo, onde duas importantes lideranças femininas do Parque das Tribos desmentem categoricamente as afirmações da pesquisadora.
No vídeo, Cláudia Baré, respeitada liderança da comunidade, reconhece explicitamente a legitimidade da eleição de Ismael Munduruku como cacique do Parque das Tribos, afirmando que o processo ocorreu de forma democrática e jamais foi contestado.
Este depoimento contradiz frontalmente a narrativa construída por Litaiff sobre uma suposta "autoproclamação" de liderança. Mais contundente ainda é o depoimento de Maira Mura no mesmo vídeo. Citada por Litaiff como fonte para sustentar alegações contra Ismael Munduruku, Maira afirma categoricamente que "nunca disse a nenhum pesquisador que Ismael Munduruku se autodeclarou liderança". Este desmentido direto de uma fonte supostamente consultada pela pesquisadora constitui uma das falhas éticas mais graves que um trabalho acadêmico ou jornalístico pode apresentar: a distorção deliberada ou negligente de depoimentos para sustentar uma tese preconcebida. Tal comportamento ultrapassa os limites do erro metodológico e adentra o território da desonestidade intelectual.
Jornalistas e acadêmicos, tem o dever de buscar a verdade com rigor e responsabilidade. A dissertação de Paula Litaiff, infelizmente, falha neste aspecto fundamental. Ao transformar divergências internas legítimas em alegações de "violência simbólica", o trabalho não apenas compromete sua própria validade científica, mas também cria divisões artificiais em uma comunidade que, segundo múltiplas fontes, tem nas mulheres indígenas protagonistas ativas e respeitadas.

A impugnação protocolizada por Ismael Munduruku, somada aos depoimentos em vídeo de Cláudia Baré e Maira Mura, expõe a fragilidade e a precipitação de um trabalho que nunca deveria ter recebido o selo de aprovação acadêmica. Este caso deve servir como alerta sobre os riscos de se confundir ativismo com pesquisa acadêmica, uma lição valiosa tanto para o jornalismo quanto para a antropologia contemporânea. Também evidencia a necessidade de dar voz aos povos indígenas quando estes são retratados de forma distorcida, reconhecendo seu direito de contestar narrativas que não correspondem à sua realidade vivida. A academia e o jornalismo precisam urgentemente repensar seus mecanismos de verificação e validação para evitar que trabalhos imprecisos e antiéticos como o de Paula Litaiff causem danos reais a comunidades já historicamente vulnerabilizadas.
Fotos:/Vídeos: Divulgação.








