Justiça para Menina Indígena: Alemão é Condenado a 9,5 Anos de Prisão na Alemanha por Abuso Sexual no Brasil.
- Denison Souza
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Munique, Alemanha – Em uma decisão histórica para a defesa dos direitos indígenas em âmbito internacional, o Tribunal Regional de Munique I condenou, em 14 de novembro de 2025, o empresário alemão Wolfgang B., de 78 anos, a uma pena de nove anos e meio de prisão. A sentença coroa uma longa e árdua batalha judicial pelo abuso sexual sistemático de uma menina indígena da etnia Kokama, em crimes que se estenderam por quase uma década na região amazônica do Brasil. A condenação na Alemanha, país natal do réu, só foi possível graças à incansável atuação do advogado indígena Isael Munduruku, que levou o caso à justiça europeia. Wolfgang B., que se apresentava como um respeitável operador de turismo ecológico e ex-documentarista, foi considerado culpado por uma série de crimes hediondos, incluindo abuso sexual grave de crianças, estupro, abuso sexual de pessoa sob proteção em 22 casos documentados e posse de pornografia infantil. A corte alemã, presidida pelo juiz Matthias Braumandl, descreveu as ações do réu como um "brinquedo sexual vivo", destacando a "massiva humilhação" a que a jovem foi submetida. O caso, que já havia resultado em uma condenação de 30 anos de prisão no Brasil, da qual Wolfgang B. fugiu, ganhou um novo e decisivo capítulo em solo alemão. A legislação do país permite que seus cidadãos sejam julgados por crimes cometidos no exterior, o que abriu caminho para um segundo processo, independente da justiça brasileira. A atuação do advogado Isael Munduruku foi fundamental para que a voz da vítima ecoasse nos tribunais europeus, garantindo que a justiça fosse buscada para além das fronteiras brasileiras.
A Atuação Decisiva de Isael Munduruku.

Isael Munduruku, advogado indígena e presidente do Instituto de Direitos Indígenas, emergiu como uma figura central neste complexo processo judicial. Sua capacidade de "traduzir a linguagem da floresta para a linguagem dos tribunais" foi crucial para o sucesso da acusação na Alemanha. Em um gesto de solidariedade que transcende as fronteiras étnicas, Munduruku, representou uma vítima Kokama, simbolizando a união dos povos indígenas na luta por justiça. Em novembro de 2024, Munduruku acompanhou a jovem vítima em sua primeira viagem a Munique, onde ela prestou um depoimento crucial às autoridades alemãs. Este momento foi um marco: pela primeira vez, uma jovem indígena brasileira foi ouvida em um tribunal europeu, assistida por um advogado também indígena. Em agosto de 2025, o advogado retornou à Alemanha para acompanhar a fase final do julgamento e o anúncio da sentença, garantindo que os interesses da vítima estivessem representados até o último momento. A presença de Munduruku no tribunal alemão não apenas assegurou a representação legal da vítima, mas também deu visibilidade à luta dos povos indígenas contra a exploração e a violência, estabelecendo um precedente histórico na defesa internacional dos direitos indígenas.
Os Detalhes Sombrios do Caso
Os crimes de Wolfgang B. começaram quando a vítima tinha apenas seis anos, em 2013. Retirada de um abrigo pelo empresário e sua então companheira, a menina foi levada para a pousada "Cheiro de Mato", em Novo Airão (AM), onde os abusos se intensificaram a partir dos 12 anos. O réu utilizava métodos de coerção física e psicológica, incluindo o uso de algemas e correntes, e filmava os atos de violência. Segundo o próprio réu, ele o fazia por estar "farto da pornografia na internet".
Durante o julgamento em Munique, a defesa de Wolfgang B. tentou, sem sucesso, justificar seus atos com os "costumes" do Brasil e a suposta "precocidade" das meninas brasileiras, em uma clara tentativa de inversão de culpa. O juiz Matthias Braumandl rechaçou veementemente tais argumentos, proferindo palavras duras contra o réu:
"Você era um aventureiro, quando esse termo ainda existia. Documentarista, pesquisador, cosmopolita. Você também foi um pai e parceiro cuidadoso. E agora, no final desta vida plena, tudo isso desaparece na névoa e o que resta é: o velho alemão que por anos abusou de uma menina pequena na região amazônica."
O juiz também ironizou a alegação do réu de que teria sido chantageado pela família da vítima:
"Se você não quer ser chantageado, é recomendável não fazer sexo com crianças."
Um Marco na Justiça Internacional
A condenação de Wolfgang B. na Alemanha representa uma vitória significativa na luta contra a impunidade em crimes transnacionais e na proteção de populações vulneráveis.
A cooperação entre as justiças do Brasil e da Alemanha estabelece um modelo importante, demonstrando que é possível superar barreiras jurisdicionais para responsabilizar criminosos. Este caso emblemático, que teve a sua elucidação inicial graças ao trabalho de uma jornalista, envia uma mensagem clara: não há refúgio seguro para aqueles que cometem crimes contra os mais vulneráveis, especialmente contra os povos originários. A sentença, embora ainda não definitiva, é um passo fundamental para a reparação da vítima e um símbolo de esperança para outras comunidades indígenas que buscam justiça em fóruns internacionais.





