A dupla campeã de derrotas querendo dar aula de democracia
- Isael Franklin Gonçalves
- 29 de mai.
- 2 min de leitura
Atualizado: 26 de jun.
Se Marco Rubio quisesse mesmo ensinar democracia, começaria entregando um cartaz de “procura-se” ao próprio chefe. Mas o novo secretário de Estado de Donald Trump preferiu algo mais performático: ameaçar negar visto a quem “censurar americanos on-line” — leia-se o ministro Alexandre de Moraes e o STF. Washington desenha o gesto como cruzada em defesa da liberdade; no Brasil, soa como um meme: o governo que perdeu 62 das 63 ações para anular a eleição de 2020 agora distribui cartões vermelhos jurídicos pelo hemisfério.
A façanha é aritmética cruel. Trump entrou em juízo como quem vai ao cassino: muita roleta, quase nenhum acerto. O tribunal supremo do Wisconsin, cortes federais da Pensilvânia, Nevada, Michigan — todos carimbaram “improcedente” nas petições do magnata; três juízes indicados por ele próprio rejeitaram a aventura no Supremo dos EUA. Ainda assim, o homem que coleciona derrotas como quem coleciona gravatas de seda acha sensato dar sermão ao STF.
Bolsonaro, por sua vez, faz parceria no fiasco: tornado inelegível pelo TSE até 2030 e prestes a sentar no banco dos réus por tentativa de golpe, o ex-presidente exibiu o mesmo apetite por processos e o mesmo azar nas sentenças. Juntos, ele e Trump formam a maior dupla de produtores de jurisprudência… contra si mesmos.
Daí a ironia final: Washington vende o visto americano como se fosse bilhete dourado da Fantástica Fábrica de Chocolate. Só esquece de mencionar que a aventura pode terminar no Krome Detention Center, onde estrangeiros lotam celas superpovoadas sob denúncias rotineiras de abuso. O mesmo governo que promete a “maior operação de deportação da história” jura estar preocupado com o bem-estar de quem digita tuítes críticos a Washington. Obrigado, mas o brasileiro médio prefere enfrentar a fila do INSS a virar estatística de deportação relâmpago.
No fundo, a ameaça de visto virou peça de humor involuntário: quem não consegue convencer o seu próprio Judiciário quebre o galho tentando intimidar o nosso. É como se um time rebaixado à quinta divisão resolvesse meter medo no campeão da Libertadores porque “entende de bola”. Pois bem: o STF segue apitando o jogo em campo brasileiro, sem pedir permissão a Miami. E, se precisar viajar, sempre há Foz do Iguaçu — lá o controle de fronteira é menos arrogante e as cataratas são mais civilizadas que certos porta-vozes de Washington.
Moral da história: quando o Departamento de Estado fecha a porta, o ridículo é quem fica preso do lado de dentro.
Foto: Divulgação.








